Sentada no sofá ouvia os minutos passando. Vagarosamente. Cada segundo demorava uma hora. Mar de tempo inacabável. A analista olhava pra mim, pacientemente, lutando pra não cochilar. Uma batalha contra os 50 minutos que era obrigada a ficar ali. Uma guerra médico-paciente. Olho no olho. Quem desistir primeiro levanta a mão. Trégua. “Olha, acho que estamos perdendo nosso tempo.Que tal você se dar por vencida e me deixar em paz com as minhas loucuras?” Mais dez minutos. Mais oito minutos. Mais cinco minutos. Mais três minutos... “Nos vemos semana que vem. Tenha um bom dia”. Elevador. No mesmo corredor uma locadora. O mesmo rapaz de sorriso colado no rosto. O mesmo “oi” tímido. Como ele sempre sabe quando estou aqui?? Digo oi de volta e o elevador chega. Dele sai o próximo paciente. Um homem de seus 50 e poucos. Cabeça sempre baixa, passos curtos, meio gordo, meio velho, meio torto,meio cambaleante. “Boa tarde” ele diz. Só se for pra você.
Meu nome é LUX. LUX mas se pronuncia Lãx, inglês. Vim parar aqui por causa desse nome. Ela devia estar bêbada quando foi ao cartório me registrar com um ano de atraso. O nome saiu no meio de um arroto. “Lãããx. Opa,desculpa moço. Ah, bota esse mesmo. Tanto faz.” Ligo o celular. Espero ansiosamente os sinais de mensagem. Em cada bip uma a afirmação de amor. O problema está em quando, justamente, não há bips. Em seu lugar a ligação-terror. “Acabou a sessão? Quando voltar traz um maço pra mim. Carlton, filtro branco.” Coitada, ela pensa que é chique. E faz de propósito, porque sabe que odeio cigarro. Respondo um tá bom sem vontade e pego o ônibus na direção contrária.
Aperto a campainha do chiqueiro disfarçado de cubículo que o Alex mora. Alex uma ova. Já vi na carteira de identidade que a bicha esconde que o verdadeiro nome é Alesmaildo. Se tivesse um nome desses também teria problemas mentais. Já quase não agüento com meu “LUX”. Isso moça, ele, uh, xis. Não, não vem de luxo. Sim, pode ser, minha mãe toma muito banho. É , ela queria homenagear a fábrica de sabonete. Pois é, né. Limpa até no nome. Hahaha! Engraçadíssimo.
“Abre essa porta, bicha, porra, tô tocando faz meia hora!” De nada adianta eu socar, chutar, gritar. A filha da puta vai me deixar aqui plantada. Só porque dei uns amassos no carinha que ela tava a fim. “Não foi nada demais, Chuchu, a gente tava crazypeople. Ele te ama!”. A porta finalmente se abre. Se não tivesse que me controlar teria um heartattack de riso. Ótima oportunidade para morrer, aliás. O cabelo do “Alex” num tom meio laranja, meio amarelo ovo. Um olhar de desespero e súplica. “Pára de rir, caralho, e me ajuda a consertar essa merda!”. Tento, mas não consigo. Caio no chão me contorcendo de tanto rir. Puta que pariu, se controla, se controla... Olho de novo, mais um acesso. Pára de rir, porra. Maldição de bicha é foda. Pega mesmo! A Bicha em pé, com a mão na cintura, esperando meu ataque acabar. Senta na cadeira, amarra um bico, cruza as pernas e dá um gole no café já frio. “ Quando a senhora acabar de me sacanear, vá por obséquio à farmácia comprar um castanho-chocolate número 13”. Desço as escadas ainda rindo e me concentro pra não errar na cor. Maldição de bicha.... melhor não brincar.
LUX
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