domingo, 2 de dezembro de 2007

Sobre estar por cima da carne seca (Oi, meu nome é Lola!)

Vou te falar sobre unas cositas que eu aprendi desde que me mudei pra essa cidade: se você não é adotado por um grupo MUITO rápido, você não sobrevive. Tudo bem, essa afirmação é muito dramática, deixe-me explicar. Dá pra sobreviver sim, se você, assim como eu, não é do tipo de pessoa que precisa da aprovação alheia. Então, cheguei aqui e me arrumei fácil porque tenho dentro de mim uma coisa "boa praça" de ser: "bom dia, e aí tudo bem", "nossa, seu cabelo tá bonito hoje!", "tá precisando de alguma coisa?", enfim, as pessoas são muito carentes, amam ser elogiadas, amparadas, lembradas... aí fica fácil demais.
O problema é que toda a minha "boa pracice" explodiu na minha cara, sabe? O primeiro grupo de amigos que arranjei quando cheguei aqui não durou nem 6 meses. Fui descartada porque comecei a fazer amizade com uma menina que eles julgavam insuportável. Aqui as coisas funcionam assim, grupo de amizade é como um casamento. Você se compromete a conviver naquele meio, participar das fofocas e virar a cara pras pessoas certas.

Mandei todo mundo tomar no cu.

Mentira, falei que eles eram mente fechada demais. Ridículo, né? Deveria ter mandado pra puta que pariu mesmo. Sempre que fico com muita raiva, penso nas barbaridades mais cabeludas pra dizer, mas na hora sai uma coisa meio pseudo-educada-querendo-sair-por-cima-da-carne-seca. Dependendo da situação, não digo nada e saio correndo pra chorar em algum lugar. Ridículo, ridículo...

Sorte minha que o Alex sempre fica do meu lado quando eu preciso. Mesmo depois do mal-estar da semana passada. Vou contar, nós fomos pra uma boate, bebemos horrores e eu acabei soltando que espiei sua carteira de identidade e vi o seu antigo cabelo headbanger, da época em que ele tirava onda de metaleiro hetero do mal. Todo mundo riu, até ele, mas quando resolvi revelar que o bafão do século era que o verdadeiro nome do Alex é Alesmaildo, nossa... O Alex me lançou aquele olhar cortante meio de lado que, se tivesse uma legenda, diria "sua vadiazinha de merda, te pego lá fora". Mas nenhum climão entre o Alex e eu dura mais do que alguns minutos, no outro dia já estávamos felizes e contentes fazendo compras no shopping.

Retomando o raciocínio, a beesha me deu uns conselhos fora de série quando cheguei chateada da faculdade dizendo que não tinha mais amigos.

- Olha aqui meu bem, você quer que tudo seja muito perfeitinho na sua vida. Não é todo mundo que vai te achar uma fofurinha gracinha, tá, vai se acostumando com isso. Ao longo da vida você tem que lidar com até 5 pessoas que te odeiem pra amadurecer. PELO MENOS! Se hoje em dia eu sou bem colocada é porque já fui muito detestada, por isso que eu sempre digo...

- Pelo amor de Deus, não diz que...

- “Sua inveja é o combustível do meu sucesso!”

- Você e mais um milhão de bichas chineleiras do flogão brasil...

- *risos* Falando sério baby, você precisa de um choque de realidade. Respira fundo, vamo lá. Se ninguém disse isso pra você até hoje, vou fazer esse favor.

Alex levanta, coloca uma mão na cintura e com a outra aponta o dedo na minha cara. Sua expressão muda rapidamente de “bicha melhor amiga” pra “trava que vai dar o golpe da gilete”.

- De boazinha você não tem nada não, viu?!!! Você é muito esperta, porque fica perto dessas pessoas que julga serem mais carentes do que você porque no fundo se sente sozinha e não tem coragem de admitir!!! Vamo tirar essa coroa de rainha da cocada preta da cabeça, vamo?!!!

Alex ajeita o cabelo, suspira, senta no sofá e acende um cigarro. Tranqüilíssimo, satisfeitíssimo consigo mesmo.

Aí eu levantei e mandei o Alex tomar no cu! Perguntei quem ele pensava que era, peguei minha bolsa, chutei a porta e mandei ele tomar no cu de novo! Falei que o cabelo dele tava uó também!

Mentira, claro que não, comecei a chorar pra caralho e contar todos os meus traumas de infância, minhas decepções amorosas, os meus bloqueios, blá blá blá, drama, drama, drama. Ridículo, cara.. que palhaçada. Mas ele estava certo.

- Olha, assim que você parar de arranjar desculpas pra si mesma, tudo vai ficar bem. Você tem uma vida nova agora, a vida independente que você sempre quis não é mesmo? Então, aproveita, desencana!

É, finalmente eu tenho minha vida nova, não sei porque fico criando tantas barreiras. Acho que foi porque saí da casa da minha Tia chutando o balde, pela primeira vez na vida eu mandei alguém tomar no cu, chutei a porta, disse tudo o que estava entalado na minha garganta há anos. Só faltou dizer que o cabelo dela era uó. O cabelo dela era cafona. Depois de sair do jugo da tia opressora, não sei porque diabos eu fiquei com medo das pessoas. Porque diabos eu passei a engolir sapo. Dona Joana era uma mistura de Baby Jane com Capitão Nascimento, sabe. Se qualquer dia desses eu reaparecer em casa e flagrar a Tia tomando chá de magma do inferno com Hugo Chávez não vou ficar nem um pouco surpresa.

O que tento criar na minha cabeça é um sentimento de ordem, de auto-controle e controle das situações. Tudo tem que estar perfeito para que eu esteja em paz. Só que é impossível estar em paz porque nada é perfeito.Certo? E quanto mais eu quiser ajeitar as coisas, pior minha situação vai ficar. Não é? Porque a idéia de paz é hiperbólica, e tenho a plena consciência de que, se por alguma falha na ordem natural dos acontecimentos de todas as coisas do mundo eu conseguisse alcançar a tal da hipérbole, minha vida não teria mais sentido algum. Preciso resolver essa mania de bater de frente com os meus sentimentos para manter a ordem, porque tenho medo de que quando a ordem chegar com toda a sua “paz”, eu pire por não saber lidar com o silêncio. Como se vive no silêncio? Como se cria? Como se ama? Fico nesse dilema, ansiando por uma coisa que eu sei que nunca vou alcançar, mas mesmo assim, tendo medo de alcançá-la.

Blá, blá, blá, drama, crise existencial.

- Não precisa dizer mais nada minha querida, aqui, toma o cartãozinho dessa terapeuta. Uma grande amiga minha que se consulta com ela esqueceu aqui. Acredite em mim, a mulher faz milagres.

Aceitei, resignada. Dei um beijo no Alex e enquanto me dirigia à porta, perguntei qual amigona vai nessa tal terapeuta... a Ana, a Betinha, a Amanda ou aquela Lux..?

- A Lux.

Saí pensando em que espécie de Milagre a Dra Carla Regina Albuquerque poderia ter feito pela Lux, porque sinceramente, a garota é a personificação de um train wreck. Sabe pessoa que precisa da aprovação dos outros mas faz de tudo pra chocar? Então, é ela mesma. Ainda bem que não sou assim. Até pensei em largar o cartãozinho de lado, mas só porque a terapia não funcionou com a Lux não quer dizer que não vá funcionar pra mim. Eu quero ser ajudada; sei que estou com problemas, então vou me curar muito mais rápido que ela.

Lux e Lola 1

Sentada no sofá ouvia os minutos passando. Vagarosamente. Cada segundo demorava uma hora. Mar de tempo inacabável. A analista olhava pra mim, pacientemente, lutando pra não cochilar. Uma batalha contra os 50 minutos que era obrigada a ficar ali. Uma guerra médico-paciente. Olho no olho. Quem desistir primeiro levanta a mão. Trégua. “Olha, acho que estamos perdendo nosso tempo.Que tal você se dar por vencida e me deixar em paz com as minhas loucuras?” Mais dez minutos. Mais oito minutos. Mais cinco minutos. Mais três minutos... “Nos vemos semana que vem. Tenha um bom dia”. Elevador. No mesmo corredor uma locadora. O mesmo rapaz de sorriso colado no rosto. O mesmo “oi” tímido. Como ele sempre sabe quando estou aqui?? Digo oi de volta e o elevador chega. Dele sai o próximo paciente. Um homem de seus 50 e poucos. Cabeça sempre baixa, passos curtos, meio gordo, meio velho, meio torto,meio cambaleante. “Boa tarde” ele diz. Só se for pra você.
Meu nome é LUX. LUX mas se pronuncia Lãx, inglês. Vim parar aqui por causa desse nome. Ela devia estar bêbada quando foi ao cartório me registrar com um ano de atraso. O nome saiu no meio de um arroto. “Lãããx. Opa,desculpa moço. Ah, bota esse mesmo. Tanto faz.” Ligo o celular. Espero ansiosamente os sinais de mensagem. Em cada bip uma a afirmação de amor. O problema está em quando, justamente, não há bips. Em seu lugar a ligação-terror. “Acabou a sessão? Quando voltar traz um maço pra mim. Carlton, filtro branco.” Coitada, ela pensa que é chique. E faz de propósito, porque sabe que odeio cigarro. Respondo um tá bom sem vontade e pego o ônibus na direção contrária.

Aperto a campainha do chiqueiro disfarçado de cubículo que o Alex mora. Alex uma ova. Já vi na carteira de identidade que a bicha esconde que o verdadeiro nome é Alesmaildo. Se tivesse um nome desses também teria problemas mentais. Já quase não agüento com meu “LUX”. Isso moça, ele, uh, xis. Não, não vem de luxo. Sim, pode ser, minha mãe toma muito banho. É , ela queria homenagear a fábrica de sabonete. Pois é, né. Limpa até no nome. Hahaha! Engraçadíssimo.
“Abre essa porta, bicha, porra, tô tocando faz meia hora!” De nada adianta eu socar, chutar, gritar. A filha da puta vai me deixar aqui plantada. Só porque dei uns amassos no carinha que ela tava a fim. “Não foi nada demais, Chuchu, a gente tava crazypeople. Ele te ama!”. A porta finalmente se abre. Se não tivesse que me controlar teria um heartattack de riso. Ótima oportunidade para morrer, aliás. O cabelo do “Alex” num tom meio laranja, meio amarelo ovo. Um olhar de desespero e súplica. “Pára de rir, caralho, e me ajuda a consertar essa merda!”. Tento, mas não consigo. Caio no chão me contorcendo de tanto rir. Puta que pariu, se controla, se controla... Olho de novo, mais um acesso. Pára de rir, porra. Maldição de bicha é foda. Pega mesmo! A Bicha em pé, com a mão na cintura, esperando meu ataque acabar. Senta na cadeira, amarra um bico, cruza as pernas e dá um gole no café já frio. “ Quando a senhora acabar de me sacanear, vá por obséquio à farmácia comprar um castanho-chocolate número 13”. Desço as escadas ainda rindo e me concentro pra não errar na cor. Maldição de bicha.... melhor não brincar.

LUX